A vontade de potência, por Victor Leandro

13/04/2020

Que pode a filosofia diante dos declínios do corpo e da saúde? Rigorosamente tudo, é o que nos diz Friedrich Nietzsche. Fundado na ideia da vontade de potência, ele afirma, antes de mais nada, que a vida humana se congratula pelos meios com os quais ampliamos nossa força de agir, e com esta convertermo-nos então no que é a nossa essência, insaciáveis aves de rapina sempre dispostas ao avanço do poder, o qual, é importante que se diga, não pode de nenhuma forma ser confundido com as medíocres veleidades burguesas, que buscam desesperadamente apenas a saciedade torpe de seus instintos de bem-estar e egoísmo primitivos. De forma alguma, a elevação que se deve almejar é a da incomensurável grandeza, do espírito satisfeito consigo mesmo e que vê no mundo o conseguinte de sua afirmação e amor próprio para além das glórias vazias do dinheiro.

Nesse caminho, não há doença que possa se contrapor, principalmente se nos utilizamos do pensar filosófico. Contudo, este deve prosperar a partir das faculdades volitivas motoras da existência, e não de um exercício estéril do pensamento. "fiz da minha vontade de saúde, de vida, a minha filosofia..." diz o filósofo, que ao longo de muito tempo teve privações físicas, mas nunca encontrou-se de fato enfermo, o que lhe permitiu extrair, mesmo diante das mais agudas diversidades, um efeito inesperadamente contrário sobre si do que se espera de uma doença, e que o colocou diante de uma intensa experiência criadora, digna dos seus rigorosos ímpetos auto-afirmativos:

Pois atente-se para isso: foi durante os anos de minha menor vitalidade que deixei de ser um pessimista: o instinto de auto-restabelecimento proibiu-me uma filosofia da pobreza e do desânimo... e como se reconhece, no fundo, a vida que vingou? Um homem que vingou faz bem a nossos sentidos: ele é talhado em madeira dura, delicada e cheirosa ao mesmo tempo.

Sim, há que se endurecer e resistir, porém essa dureza e resistência não poderão ser feitas sem uma vibrante e bela vontade de vida. É nela que obteremos - isso vale também para a ciência - a solução transformadora para nós e para os outros, no que se guiará a humanidade para um autêntico devir. Encontremos em cada um o lume, o vigor, a sensibilidade e o ânimo que devem despertar agora como valiosas armas de luta guardadas para o momento em que nos convocam o acaso e o destino. Sejamos no presente a força infinda, e que adormecera por tempos tranquila à margem de nossa necessidade. Mas é chegado o seu instante. Para tanto, como um item de nosso arsenal, ajuda-nos a filosofia.

Nos momentos de perigo, a vontade de potência humana deve crescer. É hora de trilhar com vitalidade o tortuoso caminho.