A toca, por Victor Leandro

09/05/2020

Era um buraco pequeno, por onde só passavam ratinhos.

Não saiam de lá, salvo para comer. Viviam satisfeitos, apesar de amontoados e sujos. Passavam a maior parte do tempo a roer os rabos uns dos outros e a arrumar confusão entre si. Recusavam com veemência quem lhes tirasse de sua irritabilidade indolente. As ideias diversas eram banidas de maneira derrisória.

Certo dia, um deles, tomado de certo fastio, resolveu sair de casa, para andar a esmo. Ao retornar, os outros se assustaram ao perceber que ele tocava uma flauta. Contrariados, eles lhe disseram que aquilo era chato, cansativo e inútil, e que não queriam saber daqueles sons perturbadores na toca. Desprezaram-no e afastaram-se dele com desdém.

Mas o rato persistiu, e a cada dia dava mais passeios, de onde voltava com novidades que eram igualmente mal recebidas. E lá ficava ele sozinho a remontar suas palavras inusitadas e instrumentos lúdicos.

Porém, houve uma vez que saiu e não mais voltou. Foi difícil explicar o que aconteceu. A ratarada reagiu de modo difuso. Simplesmente, ele havia ficado grande demais, e não cabia mais na toca. Escolhera então ficar do outro lado do mundo, ali, no lugar onde sua música e suas palavras novas encontravam atentos ouvidos.