A quarentena de um escritor, por Victor Leandro

24/05/2020

Tomar as palavras como se fossem móveis. Não funciona. É preciso procurar a essência da matéria. O que está descrito entre paredes e longos solilóquios de ausência. Um tema lírico, ou talvez não. Apenas a ideia concebível de meros relatos de erros. O distante barulho onde veloz corre, no que perdura o instante.

Todos os dias. Do modo que se deve colocar-se a escrever e a rabiscar o papel. Porém, as folhas reais não mais existem. Nem as boas histórias, é o que dizem. Tudo junto na fraude da tecnologia. Resisto ao anacronismo. É então que vejo o jornal e são cenas tristes, ou ainda uma comédia infeliz. A mesma esquerda, a mesma direita, a coisa faltante a se chamar o que progride. Contudo, sou histriônico. Sigo, com o verbo a rasgar as notícias ao meio.

Então vem a tentação do eu. Só posso falar de mim ou mim, de uma subjetividade insatisfeita. Perverso tema de declínio. A tarefa de emoldurar-se é ilusão ingênua. Melhor será contar mentiras sobre a passagem do exército vermelho.

A certa altura, reflito. Não, não tem nada a ver com o tema. Tudo é linguagem e seu trato benigno. Coloque os verbetes na ordem e o mais irá bem. Advérbios, adjetivos. Longa dialética do supérfluo como aporia. Livre paradoxo da forma. A efusão da frase supera qualquer carecimento.

Apago tudo, ligo a TV. Esqueço-me. Dou-me por perdido. Horas depois, cá estou eu de novo. A escrita não é mais do que um deletério vício.

Do outro lado da janela, a chuva e os dias passam. É assim que fico.