A paz dos abismos, por Victor Leandro

28/07/2020

Enquanto o país caminha para os cem mil mortos, a arrogância dos que se encontram saudáveis esforça-se por produzir uma atmosfera de calmaria, como a dizer a todos que está tudo bem, que nada poderia ser de fato de outra maneira. Logo, o que se deve fazer é prosseguir.

Uma ideia trágica, se não fosse farsesca. Diante de nós, não existe nenhum caminho inevitável, tampouco fatalista. Se estamos onde estamos em termos de caos sanitário, e se enfrentamos a doença e a morte com indiferença, isso se dá apenas pela força da estupidez de nossa desrazão, que nos impede até mesmo de ver os fatos com clareza. No mais, restamos politicamente enlaçados no abandono em que proliferam as notícias falsas e a vacuidade do não-governo.

Mas nada disso parece nos abalar. Seguimos nosso ritmo tranquilo, o qual nos lembra de uma realidade tão estranha quanto precisa: no fundo do abismo, o que há é sempre o escuro e o silêncio.

Que chamemos estes de serenidade ou angústia, vai de nosso cinismo dizer. Porém, a normalidade manifesta denuncia nossa escolha. Chegamos à paz dos abismos. Resta apenas alcançar a dos cemitérios.