A passagem para o não-governo, por Victor Leandro

19/06/2020

De início, a gestão Bolsonaro apresentou-se como um desgoverno, ou seja, um conjunto de agentes incapazes de administrar a máquina pública e dar-lhe algum rumo minimamente significativo. Mas isso foi apenas o começo.

Depois, a radicalização de suas pautas conduziu o Estado não apenas para um momento de desatino, mas de deliberada autodestruição. Todas as instituições foram postas sob ameaça, tendo configurados como principais inimigos aqueles que precipuamente deveriam zelar por elas. Chegou-se, assim, à fase do antigoverno.

Agora, com as denúncias de corrupção que se avolumam e expõem as ligações escusas do clã oficial, chegamos ao instante de uma inteira negação ontológica, um não-governo. Inerte, sem meios para fazer valer nenhuma de suas metas, os representantes do planalto agora vagam sem rumo sob os olhares atentos do centrão, que, como abutre, espera apenas o momento de decretar o seu fim definitivo.

Tudo isso seria trágico se não fosse melancólico, e seria melancólico e se nele houvesse algum sentido. Na verdade, não é nada, como nada foi sempre a importância política dos que ora ocupam a função de mandatários do país. O que quer que tenha sido, o evento Bolsonaro não existe mais. Resta um signo vazio.

A questão, novamente, é quem será capaz de preenchê-lo. Eis o propósito e a direção da luta daqui por diante.