A monotonia antipolítica de Bolsonaro no ciclo espetacular da sincera ignomínia, por Victor Leandro

07/05/2020

Já se disse outras vezes. No antigoverno Bolsonaro, tudo que parece é. Seu êxito e sua continuação se fundam exatamente nisso. A falta de profundidade é a sua muralha de defesa. Se o acusam de interferência na polícia, ele responde autuando nela sem maiores melindres. Se dizem que está comprando apoio no congresso, ele aparece ao lado de líderes condenados na TV. Com isso, logra desarmar toda a possibilidade de discurso por moralização. Sua franqueza torna oficialmente aceitável aquilo que deveria ser condenado como crime.

Juntamente a isso, vem a sua capacidade de repetir o mesmo cotidiano monótono como se fosse o novo. Como uma série desgastada de zumbis, ele reproduz incessantemente o roteiro espetacularizado de sua indigência: inicia a semana com mesuras, depois radicaliza até arrumar uma polêmica interna. No domingo, une vozes com os que vociferam contra a democracia, para, já no dia seguinte, amenizar o tom. E assim recomeça mais uma vez o ciclo, que, apesar de toda a sua obviedade, consegue entreter até mesmo e com muita eficácia os seus opositores, que dessa forma permanecem estáticos e sem avançar nas pautas verdadeiramente significativas de sua contraposição.

Mas nada disso também é surpresa. A rigor, Bolsonaro sempre foi um subproduto da indústria cultural, e, como tal, segue o modelo agora vigente, com reprises requentadas de sua prática política entediante. Uma triste e insuportável programação de quarentena.

Enquanto isso, no real, a marcha destruidora segue firme. Essa sim, avança inclemente, avisando que já passou da hora da serpente de Ouroboros ser destruída. Que devore logo a si mesma e desapareça, é o que todos esperam. Mas claro está que não fará isso sozinha. Romper com ela é sempre o gesto de uma grande luta para dar a si um outro caminho.