A meia calça de Andreia, por Luana Aguiar

22/05/2020

Quando vi Andreia pela primeira vez, ela estava andando no meio do hall do Hotel Panorama e segurava uma pasta verde e mais alguns papéis debaixo do braço. Vestia um tubinho, salto alto e uma meia calça preta, um tanto puída e transparente, preciso admitir, pois isto é o que, digamos, chamou a minha atenção inesperadamente. Ah, dava até para ver a tatuagem de uma rosa dos ventos em preto e cinza encravada na panturrilha. Seu rosto era longo e fino; os lábios, grandes e volumosos, e o nariz e os olhos, pequenos. Soavam como uma composição dodecafônica, uma desarmonia magnífica. Mas, de todo modo, ainda é difícil explicar como era Andreia. Me perdoem. Hoje em dia, ela me aparece de forma diferente a cada vez que tento lembrar seu rosto, às vezes chega a surgir como um borrão em minha mente, sem conseguir defini-la por completo. Chego a me perguntar se estou sendo fiel em descrever a fisionomia da mulher que por tanto tempo desejei.

Naquele primeiro dia em que a vi, lembro que ela andava até o encontro de outra mulher para entregar a pasta e os papéis, uma colega de trabalho talvez, não dei atenção, pois o que me fascinava mesmo era Andreia. Parecia que meu campo de visão havia se limitado àquela mulher andando vagamente pelo salão. Tudo o que existia naquele instante para mim era o seu andar, na verdade não propriamente o andar, mas suas pernas... e aquela meia calça preta. Sim, aquela meia calça gasta, transparente, em que, suavemente, me deixava ver o lance de pele entre os microespaços do elástico; era como um gozo nunca concebido, um quase-gozo, nem totalmente a pele, nem totalmente o pano, era um entre-perna, tentando decifrar os tons e detalhes de cor de pele de sua panturrilha vestida com o leve véu negro puído. E isso me atormentava.

Para ser sincero, até aquele momento eu ainda não sabia qual era o seu nome. Descobri na segunda vez em que a vi, quando desci do meu quarto e me direcionei à recepção. Por sorte, ou talvez devido às minhas súplicas a Deus, era ela quem estava atendendo aos clientes naquela manhã. Em seu delicado broche de identificação, grudado no canto superior direito do vestido preto, estava inscrito apenas seu nome: Andreia. Não sei por quanto tempo fiquei estático em frente ao balcão esperando que as palavras saíssem naturalmente da minha boca. Pensei no infortúnio que era estarmos separados por um balcão de madeira e não pudesse ver a meia calça preta que tanto me atormentou na noite anterior. Sentia-me patético.

- Olá, bom dia, moça... Ah, Andreia. Bom dia. - disse, me controlando para não gaguejar e não parecer como um adolescente que estava falando pela primeira vez com uma mulher que achava muito bonita.

- Bom dia, senhor. Em que posso ajudá-lo? - Andreia perguntou, ereta e cordial.

Naquela manhã eu só queria encontrar um lugar tranquilo para tomar um café e poder encontrar com Paulo o quanto antes para darmos início às reuniões. Antes daquela viagem de última hora eu achava que seria tudo apenas uma grande perda de tempo; reuniões intermináveis com os coreanos em que nunca chegavam a um acordo entre as partes. Mas mudei de ideia, Andreia apareceu, e até esqueci que me sentia um tradutor de coreano medíocre.

Ela disse que se eu quisesse o hotel forneceria serviço de café da manhã e que estava tudo incluso no pacote. Para mim, nada mais cômodo; o restaurante tinha uma enorme parede de vidro, que o dividia do salão. Enquanto tomava café, eu poderia ficar sentado no restaurante à espera de que Andreia, com sua meia calça preta, passasse pelo hall. Então acenei que sim com a cabeça.

- Certo, senhor. Pode acompanhar aquele garçom, ele anotará seu pedido.

Depois que saí do hotel, encontrei Paulo, como o combinado, nos encontramos na sede da empresa e tivemos uma reunião de mais de quatro horas com os coreanos. Já estava cansado e com vontade de voltar ao hotel. A ideia de conhecer a cidade e aproveitá-la como um turista não me apetecia, muito menos depois de passar horas falando em português, inglês e coreano para um grupo de homens de meia idade em terno e gravata. Pensava em Andreia e se ainda estaria no seu turno de trabalho, se estaria na recepção quando eu dissesse "boa tarde", se me achava um homem atraente ou se havia sequer notado algo em mim...

Essa rotina se estendeu por mais alguns dias daquela semana enquanto duraram as negociações de trabalho. Depois, eu nem pensava mais em voltar para Belo Horizonte. O que haveria lá? Sem família ou amigos que sentissem minha falta, prolonguei minha estadia em Manaus. Todas as noites eu encontrava alguma desculpa para andar pela recepção do hotel, uma indicação de restaurante, um ponto turístico, qualquer coisa servia para que eu pudesse ficar ali mais próximo de Andreia. Às vezes, só sentava na poltrona da entrada e fingia ler algum livro, como se aquele salão de entrada e saída constante de pessoas fosse mais aprazível para a leitura do que o conforto de meu próprio quarto de hotel. Nessa noite, Andreia, já acostumada com a minha presença ali todas as noites, chegou bem próxima e perguntou: - Sobre o que é esse livro? Expliquei, envergonhado, que era um livro sobre a história da música clássica alemã. Ela disse um "interessante", provavelmente só por educação, e voltou à recepção. Aquelas seriam as últimas palavras de Andreia dirigidas a mim, mas eu não sabia disso ainda.

Um dia, voltando para o Panorama após caminhar pelo centro, notei uma concentração de pessoas em frente ao hotel. Homens e mulheres mostravam semblantes aterrorizados; outros, apenas curiosos, com celulares nas mãos, tiravam fotos como se estivem assistindo a um grande espetáculo. Algumas senhoras, cheias de pudor, cobriam os olhos com pequenas toalhinhas de mão. Nunca gostei de me juntar a aglomerações nas ruas, seja lá para o que fosse, mas o hotel era o meu destino, afinal, e precisei seguir em direção às pessoas. Fosse o contrário, desviaria caminho. Mas, quando uma ambulância dobrava a esquina, percebi que se tratava de algum acidente, alguém devia estar ferido no meio daquela gente. Um acidente em frente ao hotel Panorama. "Tão jovem", "Oh, coitadinha!", "Ela tava saindo do trabalho", "O motorista fugiu, desgraçado", escutava ainda de longe. Estava me aproximando daquele tumulto quando algumas pessoas abriam espaço para os paramédicos atenderam a vítima no chão. Vi que era uma jovem, estava de bruços com a cabeça encravada no asfalto, era possível ver alguns centímetros de poça de sangue aumentando, aumentando... Como qualquer transeunte, eu pensava "coitada da pobre moça". No entanto, quando olhei para as suas pernas, aterrorizado reconheci a rosa dos ventos na panturrilha. Era Andreia! Corri empurrando as pessoas para alcançá-la, abraçá-la, gritei que a conhecia, que queria acompanhá-la, mas as palavras não tinham som. Permaneci inerte, sem saber para onde ir, em frente ao Hotel Panorama e poça de sangue, observando levarem a mulher cuja panturrilha com a tatuagem de rosa dos ventos agora, pela primeira vez, eu via sem a meia calça puída.