A mediocridade do presente, por Victor Leandro

06/05/2020

Sim, a humanidade sadia está prestes a sucumbir. Mas não pelo vírus. Esse poderia ser enfrentado de forma altiva se perseverasse a inteligência. O que a destrói é o enfado da estupidez dos sujeitos. Tudo o que se apresenta é de uma pequeneza sem fim.

Na política, prospera a indigência intelectiva. O fascismo que se instaura é grotesco e torpe, tão baixo que é vexatório taxá-lo de inimigo. Os debates são desprovidos de qualquer razoabilidade séria, e não servem sequer como tentativas de dissenso. Uma gritaria histérica, aberrante e rude, forjada exatamente para não ir a lugar algum e entreter os néscios como uma roda gigante. Enquanto isso, do outro lado, proliferam as fileiras da pseudoesquerda, que não faz mais do que reunir uma juventude que a assume com a mesma frivolidade com que adere a um corte de cabelo, e se satisfaz com um rótulo socialista ou em divulgar fotos segurando cartazes contra isso ou aquilo.

No plano da cultura, encontramos a mesma miséria e aridez. Toda falsa experiência é feita para não durar nenhum instante. E nem adianta atacar a indústria cultural. Os mais ridículos hoje são os leitores de Machado e Dostoievski, que pensam que eles foram feitos para enfeitar postagens do Instagram. Também o canonismo e a erudição não passam de uma imagem pedante retrógrada. Sim, não há para onde ir agora. É o paradoxo do nada.

Há, também, o plano subjetivo. Porém esse não requer maiores desvelos, pois se encontra exposto a céu aberto nas redes. Apenas ressentimentos, sentimentalismos e virulência estúpida, ou ainda o ridículo sarcasmo tomado de seriados e a fleuma fingida que esconde uma ira fraca e primitiva. Nesse cenário, cada tentativa de elevação do emotivo raso ao plano da ideia ou mesmo da estética é rechaçada como estranha. Mas esse fracasso é permanente. A maioridade dos afetos nunca acompanhou o avanço da civilização.

O que muda então é que do que antes se escapava agora se defende. A imbecilidade é motivo de elogio. Estamos no reinado do homem medíocre.

Quanto a tudo isso, resta eximir a culpa do vírus. Ele é apenas natureza. Até quando nos lançamos à rua ao encontro dele, é a ignorância, na maioria dos casos, que atua para nossa aniquilação. Longe dessa boçalidade letal, o que nos resta é o fastio do confinamento desesperançado. Em breve, nem isso. Ou quem sabe ainda há tempo para mudar essa história.