A medida do pior, por Victor Leandro

15/05/2020

É de causar no mínimo espanto a declaração do governador do Amazonas a respeito da pandemia de que o pior já passou, e de que estamos num período mais calmo e efetivamente progressivo para uma recuperação, dando margem para apaziguamentos de ânimos frente ao caos instaurado nos dias recentes.

É uma frase que tem pouca ou nenhuma articulação com a realidade, e só reflete a métrica enviesada dos que optam por esse raciocínio. Os leitos disponíveis na rede médica continuam escassos, e os números de enterros seguem para além do dobro da média. No interior, os números, apesar da evidente subnotificação, não param de subir. Fora isso, uma segunda onda do surto não está descartada. E pouco ou nada se enxerga como real horizonte de modificação substantiva em curto tempo.

Mas o que é menos aceitável nisso tudo é a tranquilidade como o dito pior foi aceito. Se o estado desceu tão rapidamente ao fundo, produzindo mais de um milhar de mortos oficialmente registrados em tão poucas semanas, é porque as políticas implementadas fracassaram retumbantemente, e o pico da doença chegou a galope. Assim, falar da redução de certos índices como se fosse uma conquista soa muito mais como uma provocação perversa e nada sensível às angústias do povo, as quais permanecem em franca ascensão.

Porém, na estranha régua dos governantes, as medidas apontam para um outro rumo, muito mais fantasioso e conivente com o cenário destrutivo de hoje. Esse é o preço de não escutar médicos e sim políticos. Por sorte, ainda há meios de não deixar propagar sem resistir a essa má consciência.

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