A magia de Harry Potter, ou o poder da indústria cultural, por Luana Aguiar

01/06/2020

A saga que narra a história do jovem bruxo Harry Potter, criada pela escritora inglesa J. K. Rowling, atinge leitores de todas as idades. A série obteve sucesso imediato após o lançamento de seu primeiro romance, Harry Potter e a pedra filosofal, em 1997, sendo sucesso de críticas e vendas, principalmente. Até maio de 2015, já haviam sido vendidas 450 milhões de cópias em todo o mundo. Os livros continuam atingindo as novas gerações, crianças e adolescentes que, apesar de não terem participado dos primeiros lançamentos da saga, estão inseridos no universo dos bruxos através de uma série de livros e longa-metragens que foram produzidos como spin-offs.O público mantém uma relação de afeto com a série, a qual fez parte da constituição de sua infância, apreciando também as novas produções (que parecem nunca se esgotar) como se relembrassem ou reinventassem a própria infância.

Harry Potter transformou-se, na verdade, numa grande marca comercial (que chegou ao valor de 15 bilhões de dólares) onde existem desde produtos de material escolar com a temática bruxo, até exorbitantes parques temáticos, como o The Wizarding World of Harry Potter, no qual pessoas do mundo inteiro viajam para conhecê-lo. O parque de diversões (o que, em si, já é um produto de consumo, como qualquer outro produto da indústria cultural) reveste-se da ilusão de levar seus consumidores a uma "experiência literária" ou experiência de entretenimento, onde as pessoas entrarão em contato com personagens que tanto amam, animais mágicos e castelos gigantescos do universo do pequeno bruxo. Isto é, tudo o que é do campo ficcional passa a criar corpo, forma e entrar em contato com o seu público.

Há quem pense que essa perspectiva não tem de nada maléfica, pois, vejamos, seria apenas uma maneira de fazer a população "entrar em contato" com a literatura, de maneira mais lúdica. Porém, isso nos faz questionar: quais outros tipos de literatura possuem um parque de diversões? Será que a ideia de experiência literária é aplicada a todos os tipos de literatura, ou apenas àquelas que, já em sua origem, possuem a intenção de serem consumidos pela indústria? Certamente os romances de Dostoiévski, como Crime e Castigo ou Os irmãos Karamázov, não possuem parques temáticos que reproduzam seus personagens e cenários. Não por que sejam histórias do século XIX de um escritor russo, mas por que a obra literária se constitui estética e ideologicamente de maneira distinta aos romances de J. K Rowling, que visam o apreço e consumo do público. Segundo Theodor Adorno, indústria cultural é a indústria da diversão, "seu controle sobre os consumidores é mediado pela diversão, e não é por um mero decreto que esta acaba por se destruir, mas pela hostilidade inerente ao princípio da diversão por tudo aquilo que seja mais do que ela própria".

As produções em massa dos spin-offs são tão absurdas quanto as suas motivações: Rowling escreveu cerca de dez obras (fora os sete livros que constituem a saga original) que continuam a semear a "magia" de Harry Potter. São livros sobre a história do esporte bruxo, o quadribol, praticado nas escolas de magia, presente em Quadribol através dos séculos (2001); outros fazem referência a narrativas de livros que são apenas mencionados pelos personagens da série, mas que a autora lhes deu luz para, claro, vender mais livros, como Os Contos de Beedle, o Bardo (2008), uma espécie de livro de fábulas que Harry ganha de presente, e Animais fantásticos e onde habitam (2001), um livro de estudo dos alunos de Hogwarts, a escola de magia. Este último ficou mais conhecido por render dois longa-metragens: o primeiro lançado em 2016 e o segundo em 2018.

De fato, essa realidade nos apresenta a real intenção da indústria quanto à série de livros, onde não há dúvida que o lucro e a alienação em massa são os principais objetivos. Não existe uma função social, seja nos romances, seja nos filmes, que apresentem ao público qualquer forma de questionamento; ao contrário disso, só perpetua uma permanência do status quo e uma prolongação da vida burguesa. O cinema não precisa mais se apresentar como arte, apresentar-se como indústria é até um orgulho - de si próprio e dos seus próprios consumidores: "A verdade de que não passam de um negócio, eles a utilizam como uma ideologia destinada a legitimar o lixo que propositalmente produzem. Eles se definem a si mesmos como indústrias, e as cifras publicadas dos rendimentos de seus diretores gerais suprimem toda dúvida quanto à necessidade social de seus produtos", como bem esclarece Theodor Adorno.

No entanto, não é de modo gratuito que a saga atinge e cativa, de forma tão intensa, leitores e expectadores (no caso dos filmes lançados posteriormente) de todas as idades, que simpatizam e se espelham nas histórias de sofrimento, redenção e aprendizado do jovem bruxo. Harry, após a morte de seus pais, quando ainda era bebê, passa a ser criado pelos tios, o Sr. e a Sra. Dursley (irmã de sua mãe, Lílian), que o maltratam e o fazem viver em condições completamente insalubres para uma criança, deixando-o dormir num cubículo debaixo da escada, usando sempre roupas velhas de seu primo Dursdley, e nunca tendo direito de fazer parte integrante família. Na realidade, eles haviam sido incumbidos de cuidarem do sobrinho por serem ainda os seus únicos parentes vivos; e, sem terem opção, o acolheram a contragosto.

No entanto, Harry vive nessas condições até atingir a idade mínima de ingresso na Escola de Hogwarts, momento em que sua vida muda completamente. No dia de seu aniversário de 11 anos, o jovem Harry passa a conhecer um mundo extraordinário, o mundo dos bruxos, que existe em paralelo com o dos humanos e passa a conhecer seu passado e, assim, a construir a sua própria identidade. Seus pais, como seus tios não o haviam contado, morreram pelas mãos de um terrível bruxo chamado Valdemort, que não conseguiu, porém, matar Harry, o deixando conhecido em todo o mundo dos bruxos. A marca deste passado está na cicatriz em seu rosto, no formato de um raio - sua marca de distinção.

Literariamente, Harry Potter não nos traz nenhuma novidade; a escrita é simples e direta, não experimental e, em sua maioria, linear, de modo que permite o leitor finalizar cada romance em um só fôlego (um motivo de orgulho, para a indústria). Assim, os romances são construídos para que sejam cada vez mais acessíveis quanto à sua linguagem. Por se trabalhar sobretudo com a linguagem escrita, a literatura sempre buscou subverter a linguagem como forma de uma autorreflexão. Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, por exemplo, é um livro comercialmente pouco vendável e é, no entanto, umas das maiores obras de nossa literatura brasileira e mundial.

Um quesito importante e pouco abordado quando se trata de Harry Potter é a sua inserção no ensino de literatura nas escolas. Em geral, os livros são enquadrados no gênero de literatura infantojuvenil e são abordados dentro dos cursos de Letras sem muito cuidado. É muito comum vermos professores nas universidades semeando o pacto da indústria cultural nas salas de aula, onde deveriam, na realidade, estar formando novos professores de literatura críticos - não somente quanto à saga Harry Potter, mas também a todas as produções da indústria cultural, que se mascaram de arte e distopias complexas, como Jogos Vorazes, Crespúsculo, entre outros.

Ora, mas como conduzir uma discussão crítica se os próprios alunos de graduação estão inseridos como consumidores natos desse processo? A partir daí, temos um processo cíclico e infinito, em que qualquer tentativa de questionar literária e ideologicamente a mais famosa saga juvenil, é excluída de antemão. Retoma-se o ciclo da ignorância; nenhuma ideia oposta é aceita, pois é classificada como antiquada, haja vista que o mundo mágico da infância - alimentado pela saga Harry Potter - não pode ser, criticamente, rediscutido, repensado.

Possivelmente, os leitores da saga sublimam, em Harry Potter, as suas frustrações da vida adulta; pois, se não conseguem atingir seus objetivos na vida real, transferem os seus desejos de viver um mundo extraordinário, no qual você se identifica, e onde possui os poderes mais inimagináveis. Pois, de fato, Harry é um jovem órfão, humilde e perspicaz, que traz em si todas as características mais nobres para a sociedade. E, além disso, aprende com os seus erros, levando-o, ao final, ao seu autoconhecimento e sucesso na vida.

A força da marca Harry Potter é tão surpreendente que, mesmo após mais de 20 anos de seu lançamento, este continua agregando fãs para o seu sustento. Harry Potter tornou-se parte do imaginário, não somente de crianças, mas de um público de todas as idades, que não medem esforços para comparecer às pré-estreias, vestidos customizados, e fortalecerem a indústria cultural, com a ilusão de que tudo aquilo foi feito para o seu próprio entretenimento.

Atualmente, mesmo após o término das adaptações cinematográficas (que se estenderam a um total de oito filmes para sete romances), a indústria do cinema continua "parindo" novos filmes que ainda fazem parte do universo do mundo bruxo. A indústria, seja a editorial ou cinematográfica, alega, geralmente, que tais mecanismos de reedições de luxo dos livros já conhecidos da saga ou de novos livros que comportam o universo de Harry Potter, ou a produção em massa de filmes sobre o mundo bruxo, são desejos do próprio público, que exigem sempre mais elementos da série de livros.

No entanto, isto não passa de um mecanismo da indústria para produzir e vender mais - isto é, "a atitude do público que, pretensamente e de fato, favorece o sistema da indústria cultural é uma parte do sistema, não sua desculpa. [...] o recurso aos desejos espontâneos do público torna-se uma desculpa esfarrapada", como bem nos esclarece Adorno. 

A magia de Harry Potter, pelo que nos parece, será sempre o dinheiro.