A lição de Adorno - educação contra as trevas, por Victor Leandro

11/06/2020

Não é de impressionar, para quem está familiarizado com a Teoria Crítica, que mesmo entre os mais escolarizados e economicamente favorecidos no Brasil, ou principalmente entre eles, persevere o instituto da barbárie e da fascistização, contra o qual a sociedade agora levanta-se em luta aguerrida. Na verdade, numa ótica adorniana, e levando-se em conta o cenário educacional no país, tais fatos se apresentam não apenas como logicamente tangíveis, mas também como inevitáveis em nosso contexto.

A educação brasileira, principalmente na esfera privada, há muito fez a escolha pela racionalidade instrumental, que prioriza o cálculo e o número, deixando de lado qualquer projeto de razão crítica. Como resultado, o que se viu foi a formação de indivíduos tecnicizados e incapazes de pensar a humanidade total, como síntese de todas as suas manifestações. Some-se a isso a semiformação em termos culturais e históricos, e o que se tem é uma classe média e uma elite permeadas de ignorância e misticismo, além de completamente impelidas pelo gosto primitivo da violência. Uma apoteose da barbárie travestida de ordem civil.

Contra isso, é que Adorno, ao refletir o mundo pós-guerra, propôs a ideia de uma educação que tivesse como prioridade o humanismo, e que conseguisse pôr fim à ameaça de uma nova escalada nazifascista:

A tese que gostaria de discutir é a de que desbarbarizar tornou-se a questão mais urgente da educação hoje em dia. O problema que se impõe nesta medida é saber se por meio da educação pode-se transformar algo de decisivo em relação à barbárie. Entendo por barbárie algo muito simples, ou seja, que, estando na civilização do mais alto desenvolvimento tecnológico, as pessoas se encontrem atrasadas de um modo peculiarmente disforme em relação a sua própria civilização, mas também por se encontrarem tomadas por uma agressividade primitiva, um ódio primitivo ou, na terminologia culta, um impulso de destruição, que contribui para aumentar ainda mais o perigo que toda esta civilização venha a explodir, aliás uma tendência imanente que a caracteriza. Considero tão urgente impedir isto que eu reordenaria todos os outros objetivos educacionais esta prioridade.

Está aí a grande lição educacional do teórico crítico, a qual é por muitas vezes aqui esquecida. Contudo, ainda há tempo. Uma nova educação pode salvar-nos do abismo futuro. Transformemos.


Imagens - https://guiadoestudante.abril.com.br/estudo/11-fatos-sobre-o-nazifascismo/  https://cinegnose.blogspot.com/2014/05/o-que-matou-theodor-w-adorno.html