A lama, por Victor Leandro

23/05/2020

Era um lamaçal sujo, escuro, longo e difícil de atravessar.

Mas no entanto era preciso. Para chegar ao outro lado, não tinham outro caminho. Ou passavam por ele, ou somente a fome estaria a sua espera. Tudo que poderia salvá-los estava na outra ponta, ainda que com alguma incerteza. De qualquer forma, a travessia era muito mais promissora que o imobilismo.

O temor, no entanto, de todos tomava conta. Também não era para menos. Muitos dos que tentaram cruzar a água suja adoeceram. Dizia-se até mesmo que inexplicavelmente houve afogamentos. Mas nesse meio palmo de líquido? Perguntavam surpresos. Sim, e era isso que se tornava um maior motivo de pânico.

Daí, então, que vinha a teoria. A lama se fortificou e tornou-se um ser vivo, com vontade e interesse próprios. Só assim poderia ser explicado o seu estranho movimento, bem como suas abruptas mudanças de cor. Certos dias, estava enegrecida. Em outros, tomava-se de um verde-oliva viscoso, até bonito, porém com um odor fétido ainda mais forte. Que ser poderia fazer isso se não fosse por um impulso volitivo? As especulações ampliavam ainda mais os densos receios.

Só que havia os que não tinham medo e desse modo mesmo iam. E eram eles que davam esperança. Do outro lado, asseguravam, tudo ia melhor. Sim, o risco era grande, porém de pouco adiantava viver dessa maneira obtusa. Mais valor teria arriscar-se e tentar uma existência minimamente digna.

Então ficavam assim, uns enfrentando, outros fugindo da lama, e com isso passava o tempo. Entretanto, o período das chuvas se aproximava, ameaçando inundar tudo. Não poderiam mais demorar-se tanto na escolha.

O sol, que brilhava pálido entre as nuvens, ainda os convidava a um outro percurso. Em tímido sibilante, bem ao fundo, até os mais frágeis começavam a balbuciar uma resposta. Estava chegada a hora de assumir o seu destino.