A isofonia pós-moderna e o declínio da ficção, por Victor Leandro

05/06/2020

Que a democracia tem seus perigos e contradições, isso era sabido pelo menos desde os gregos. Entre estes, a isegoria, o igual direito à palavra, era universalmente praticado, com o cuidado de que esse universo abarcasse somente os bem-nascidos, os quais, segundo seu misticismo, deveriam ser também os mais providos de capacidade reflexiva. De todo modo, algum crivo era necessário, no que se via uma preocupação presente com a necessidade de tornar os debates minimamente significativos.

Ora, é absolutamente estúpido acreditar que o destino pode previamente definir quem tem melhores condições de atuar nos assuntos públicos. Também isso tem pouco a ver com democracia. De igual maneira, é inútil instituir critérios meritocráticos, que continuam sendo uma grande loteria mítica. A única solução para democratizar o debate na ágora é propiciar a todos o acesso à instrumentalização crítica. Nisso, nossa sociedade contemporânea parece ter se empenhado com algum vigor. No entanto, falhou exatamente no momento crucial, pois colocou em lugar do questionamento radical uma inteligibilidade meramente operativa, a razão da lógica e do número. Como resultado, produzimos um sem número de máquinas moventes de calcular, que agora serão substituídas de maneira impiedosa pelos computadores e outros dispositivos digitais, enquanto a criticidade permanece em franco e inexorável desaparecimento, incapaz de afirmar seu lugar no mundo.


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