A festa de Neymar - moralismo e fetichismo

29/12/2020

Comecemos pelo óbvio. A festa do menino Ney é inadmissível. Superado este ponto, o problema socialmente relevante é a completa e oportuna hiperpublicização do evento, que passou a ocupar inúmeras laudas de jornais e a atenção massiva do público internetizado, permitindo com que grande parte da comunidade se esqueça do verdadeiro perigo nacional à proliferação do vírus, que é a política de morte do não-governo, que recusa vacinas e auxílio emergencial aos mais pobres. Para isso, até mesmo vozes simpáticas à presidência uniram-se ao coro contra o jogador, visto pelo establishment agora como um terrível exemplo.

Dessa maneira, o que se instaura é o fetichismo da moral, que se dirige tão só ao indivíduo como prazer punitivo, fazendo com que se ataque o irresponsável, mas perpetue-se a irresponsabilidade. Nesse momento, o debate deveria girar em torno dos agentes públicos e das leis que permitem uma festa largamente alardeada. Que Neymar ou outro a faça sob o olhar de todos, este é o grande descaso. Contudo, tal questão pouco interessa, e o que vale por aqui é punir. No mais, a população que se vire e se aglomere diariamente no transporte público. Isso não tem importância alguma perto do baile de uma celebridade.

Falam ainda da ideia da responsabilidade social, comparam o atacante brasileiro com Hamilton, LeBron, Messi, Cristiano e companhia. Porém, e de novo, a admoestação precisa ser devolvida aos seus autores. Que sociedade é essa no país que produz milhões de consciências do tipo Neymar? E será que nossos jornalistas esportivos, cuja maioria passa calada às insanidades do suposto presidente, não têm nada a ver com isso?

Mas todos estes são assuntos para debaixo da mesa. Por sobre ela, os arautos da moralidade fazem sua refeição muito bem. Servida a cabeça do algoz, dão-se por mais que satisfeitos. O real que se vire com seus assuntos.