A ética dos genocidas, por Victor Leandro

23/04/2020

Foi Peter Singer, um filósofo australiano bastante conhecido por sua defesa dos direitos dos animais, quem afirmou em um de seus textos que a ética, por princípio, não precisa estar necessariamente vinculada a padrões de ação direcionados ao bem. Um sujeito pode de modo tranquilo agir perversamente com ética, contanto que adote tal conduta como fundamento. Assim, ser ético significa sobretudo ter coerência com as normas basilares adotadas em nossa prática de mundo.

Segue daí que pouco adianta dirigir-se aos signatários do genocídio para apelar a sua consciência moral. Não que esta não exista. Simplesmente ela opera em um outro código de diretrizes, totalmente inadequado ao humanismo. Para eles, suas atuações estão absolutamente corretas, e a disseminação da morte é uma prova de eficiência. Nesse estado de êxtase, também é pouco provável que modifiquem por ora seus fundamentos.

Mas isso quer dizer que não resta saída? Que vamos sucumbir a essa moral de destruição? Longe disso. Apesar de todo o barulho, os fascistas são minoria. Para além dos fanáticos e radicais, há uma imensa camada de pessoas que se encontram paralisadas ou hesitantes, dentro das quais persevera ainda o axioma da valorização da vida e do comunitarismo. Se conseguirmos reativá-lo nelas com força, poderemos então organizar um novo rumo, sem mais as interferências nefastas dos que se prontificam a disseminar a degradação do humano.

Retomar os princípios, estruturar as ações coletivas, agir com coerência. Esse é o percurso da transformação.

Quanto aos genocidas, que permaneçam estáticos junto a sua moral. Nada lhes reservamos a mais que seu inexorável declínio.