A esperança na corda bamba, por Luana Aguiar

06/05/2020

O ano é 2020.

26 de janeiro. Quando o novo coronavírus ainda começava a se disseminar para além de fronteiras chinesas, amanhecemos com a notícia do trágico acidente de avião que deixou como vítimas Kobe Bryant, um dos maiores esportista de todos os tempos, e sua filha Gianna, de apenas 13 anos. Pouco tempo depois, a Europa é devastada pela contaminação do vírus e começa a guerra. Itália e Espanha, países mais afetados até ali, vivenciam o horror - centenas de mortos por dia, caminhões empilhados de corpos, enterros sem velório.

15 de março. No Brasil, o governo fascista junto com seu presidente e seguidores fascistoides ignoram a tragédia anunciada e veem no caos a oportunidade para se rebelarem. Manifestações antidemocráticas pedem intervenção militar, um novo AI-5: o limite não existe mais. Enquanto isso, cantores sertanejos planejam lives patrocinadas por marcas de cerveja. Nos acostumamos com a ignorância?

2 de abril. Vemos notícias sobre Guayaquil, no Equador, o colapso chegou ao sistema funerário, onde corpos são abandonados ou queimados nas ruas. Nos acostumamos com a barbárie?

21 de abril. Manaus enterra seus mortos por covid-19 em covas coletivas. Como também vítimas de casos apenas suspeitos porque, é preciso lembrar, nem todos sequer chegaram a realizar um teste para confirmar. Atestados de óbitos não são mais obrigatórios. Subnotificação, desaparecidos do covid-19, troca de corpos. Nos acostumamos...?

4 de maio. O Brasil chora duas vezes: Aldir Blanc e Flávio Migliaccio nos deixaram. Um perdeu a guerra contra o vírus; o outro, contra a terrível angústia de viver. Ah, pensamos: se não fosse o vírus, quantos não estariam ainda ao nosso lado? Tantos pais, mães, avós, filhos que, precocemente, morreram. Mas "e daí?", diz o presidente.

Ainda estamos no início maio e o Brasil ultrapassou 5 mil mortos. O Reino Unido registra 32 mil, o pior índice europeu. Os Estados Unidos tem mais de 71 mil. No mundo, são mais de 250 mil. E contando.

Estamos presos em um ano distópico onde a esperança, como na poesia de nosso Aldir Blanc, dança numa corda bamba...