À espera, por Victor Leandro

06/06/2020

-Você está perdendo tempo. Ele já passou por aqui.

-Quem?

-O Sr. Godot. Não é ele que você está aguardando?

-Impossível. Eu não saí do lugar nenhum minuto.

-Também achei curioso.

-Creio que se engana.

-Isso é bem difícil de ter acontecido. Havia outras pessoas também. Foi até uma conversa agradável, se lhe interessa saber.

-Então ele esteve mesmo aqui?

-Sim.

-E o que disse?

-Nada demais. Falou sobre o clima, inclinando o chapéu, como sempre. Disse que iria fazer sol esses tempos.

-Só isso?

-Foi.

-Nenhuma frase a mais?

-Que eu me lembre, não.

-Pode ser que tenha sido uma metáfora.

-Bem, isso talvez você possa dizer. Achei bastante literal. Contudo, sempre se pode achar uma ambiguidade.

Silêncio.

-Para onde irá agora?

-Não sei.

-Mas o que pretendia?

-Esperava que o Sr. Godot fosse dizer.

-Confiava tanto nele assim?

-Pior que nem posso me matar, porque ele já veio.

-É verdade, perdeu o sentido.

-Sim.

-Sim.

-Ou talvez,

-O quê?

-Quem sabe eu ainda o encontre por aí?

-Não nesta praça. É improvável que retorne.

-Tem razão. Pensando bem, é melhor desistir mesmo de vê-lo.

-É um gesto arrojado.

-Também urgente.

-Mas, o que fará então?

-Decidir.