A Economia como reduto acadêmico do conservador, por Marcelo Loebens

02/05/2020

Ciências evoluem naturalmente ao longo do tempo, é o cerne do método científico. Afirmações que já foram verdade em determinado ponto da história, e foram defendidas como verdade final até onde foi possível por seus entusiastas, como um vaticínio do qual não havia como escapar, são posteriormente abandonadas sem maiores problemas à luz da evidência. Você pode apostar que, a alguns séculos atrás, ao sugerir seriamente a ideia de um objeto que pudesse não só voar, mas levar passageiros e cargas de toneladas das Américas até a Europa, ou posteriormente, a de veículos que pudessem vencer a velocidade de escape da atmosfera e transportar humanos para fora desta, estas seriam imediatamente tratadas como hipóteses tolas de uma mente pouco esclarecida. Hoje, aviões e espaçonaves são elementos absolutamente comuns do dia-a-dia, ficando para a ordem da insanidade afirmar seriamente que o funcionamento destes seja impossível.

Mas e quanto à Economia? São recorrentes as afirmações por "especialistas" de que a interferência estatal provoca invariavelmente desemprego e pobreza. Argumentos como que este gera distorções na percepção do valor de ativos no mercado, reduzindo a eficiência deste em precifica-los e levando a queda de produtividade, são passados como verdades econômicas definitivas. É visto como "boa Economia" dizer que ao atuar de maneira ampla em importações e exportações, câmbio, em subsídios e impostos, em leis que determinem limites às relações de trabalho, o estado termina invariavelmente por asfixiar a economia. Estados devem fazer somente o mínimo. É o diagnóstico terminal do sistema econômico, um vaticínio inescapável a qualquer reflexão que vise utilizar a engenharia econômica para mudar a realidade atual. Propor que um estado atue na economia energicamente, de forma que esta sirva de alicerce para a melhoria do bem estar de seu povo, é uma ideia boba de mentes pouco esclarecidas.

A diferença para o caso aeroespacial é uma só. Na Economia, apesar dos avanços, os vaticínios de séculos atrás ainda são oferecidos como estado da arte, como exemplo de inteligência e "ciência boa", ainda que estes coexistam com seus contra exemplos. Ora, o dito "primeiro mundo" inteiro foi construído através do dirigismo estatal que este agora nega aos países em desenvolvimento. A maior parte da Ásia saiu da miséria generalizada utilizando estados absolutamente centrais em seus projetos econômicos. A China, ao retirar quase um bilhão de pessoas da pobreza em um único século, é uma verdadeira espaçonave econômica. Mesmo os ditos tigres asiáticos, supostos paraísos da liberdade econômica, devem seus resultados ao planejamento cuidadoso da economia por seus estados.

Tão nítida quanto o fato destas ideias serem ultrapassadas é o fato de que estas ainda contam com prestígio em âmbitos acadêmicos e políticos, e tornam-se o reduto perfeito do pensamento conservador. Nestes, essas ideias são carinhosamente nutridas e repassadas às próximas gerações, que vem a se tornar elementos validadores quando são contrapostas em pé de igualdade à pesquisa econômica metodologicamente séria. Essa idiossincrasia da área talvez explique porque a Economia como ciência apresente tão poucos avanços em teoria formal, quando comparada às demais áreas de ciências aplicadas. Afinal, o que seria da Aerodinâmica se, se contrapondo com experimentos com aeromodelos dos mais diversos calibres, geração após geração, estivesse prestigiada ainda a tese de que estes não se sustentam no ar?