A dívida, por Luana Aguiar

04/05/2020


O telefone toca.

- Alô?

- Olá, eu falo com o senhor Carlos Eduardo da Fonseca Gomes?

- Sim, quem deseja?

- Ah, maravilha! Me chamo Helindo Monteiro, sou advogado da senhora Helena Gomes. Bom, na verdade, senhora Helena da Silva, como agora ela deseja ser chamada.

- Sim, minha esposa... mas o que?

- É, bom... é justamente sobre isso que precisamos conversar, meu companheiro. A senhora Helena da Silva está entrando com um pedido de divórcio e ela também deseja que todo o contato seja feito através de seu advogado, que no caso sou eu.

- Como? Que? Não entendo...

- Mas é isto mesmo.

- Arre, isso é algum tipo de pegadinha!? Minha esposa saiu há pouco de casa pra ir ao mercado, não estamos nos divorciando.

- Ora, isso é o que o senhor imagina! Sabe, camarada, estamos em tempos difíceis, precisamos ficar em isolamento social, toda essa crise na saúde e na política aí, o Brasil tá esse bafafá... o senhor sabe bem, né? Então a minha cliente decidiu que não conseguiria mais permanecer em vínculo matrimonial com o senhor desse jeito, ela detalhou tudinho pra mim por telefone e tem todo o direito de não ter lhe contado sobre isso antes. Bom, vamos ao que interessa e...

- Mas isso é um absurdo! Eu não vou tratar nada disso com você pelo telefone, vou esperar a Helena chegar e tirar tudo a limpo. Passar be...

- Vai esperar bastante então.

- Hãn?

- A senhora Helena não vai mais voltar pra casa.

- Quê?

- Isso mesmo, e essa é a mais completa verdade, meu senhor, honro a minha profissão! Minha cliente já está determinada, vai se divorciar e já está a caminho do novo apartamento, hm... acredito que já tenha chegado lá a essa hora, inclusive. Dê uma olhada no guarda-roupas dela, verá que falta bastante coisa, não?

Carlos Eduardo continua na linha com o advogado e anda até o quarto, quando entra no closet de Helena, percebe que os cabides e as prateleiras estão quase vazios, somente alguns pares de sapato e kits de maquiagem deixados para trás. Ele volta e senta na cama, coloca uma mão na cabeça, esfrega a testa e repete seguidas vezes "Meu deus, Helena, mas como?".

- Bom, acho que o senhor não deve ter percebido quando ela levou as coisas, se não em engano ela disse que o senhor estava na tal da manifestação na Ponta Negra ontem. Sim, sim, uma pena, né? Amores vem e vão, sempre assim... É, já vi muita coisa nessa vida mesmo, digamos que estou imune a essas intempéries da vida, ossos do ofício haha!

- Então é isso... mas...

- Bom, agora podemos continuar, certo? Senhor Carlos Eduardo, além do pedido de divórcio, que será encaminhado pelos correios até sua residência, para pegar sua assinatura, a minha cliente também deseja um ressarcimento financeiro por todos os males psicológicos e físicos que o senhor lhe causou, isso deve ser feito até...

- COMO É QUE É!?

- Sim, veja bem, a senhora Helena da Silva alega que teve um bom casamento com o senhor durante esses oito anos em que estiveram juntos, o ressarcimento não é por tudo, claro. Imagine se ela fosse pedir dinheiro por cada briga que tiveram! Não chegaria a esse ponto. No entanto, o senhor lhe causou muitos transtornos durante os anos finais do matrimônio. Meu caro, minha cliente informa que desde que o senhor assumiu sua posição partidária, vejamos, há cerca de um ano e seis meses...

- Mas isso é loucura, eu sou um cidadão de bem!

- Loucura? Não mesmo, camarada. Loucura foi o que o senhor quase causou na minha cliente.

- Não vou dar dinheiro nenhum, mas que porcaria! Assino a merda desses papéis aí de divórcio, mas dinheiro dou não, ela foi embora por que quis, essa mulher, argh! Ponto final!

- Bem, camarada, não exatamente. Ela não teve escolha, estava beirando a loucura, ela me contou tudo, as notícias falsas, as manifestações políticas, as brigas com os familiares... Se for possível, seja racional, o senhor tem certo dinheiro, não vai lhe fazer falta. Afinal, é melhor que seja assim de comum acordo do que sair nas manchetes por aí.

- Tá insinuando o quê?

- Nada, meu caro, nada...

Por alguns segundos, o advogado ficou calado. Pensando que a ligação havia caído, Carlos pergunta:

- Alô, oi!?

- Oh, me desculpe! Tava fazendo uns últimos cálculos aqui... Tudo pronto! Então, a minha cliente informa que desde outubro de 2018 ela passou a frequentar um médico psiquiatra.

- E o que eu tenho a ver com isso?

- Ora, senhor Carlos Eduardo, foi exatamente no período em que o senhor se aliou ao partido, não foi? Uma professora de universidade pública, muito dedicada, estudada, nunca imaginou que você fosse se rebelar daquele jeito. Foi muito marcante. Ela precisava cuidar da saúde mental, certamente, mas também não quis conta-lo porque pensava que tudo fosse se resolver, sabe? Dialogando, mostrando os fatos... Mas deu no que deu, né?. Por favor, compreenda. Então, se estamos no dia 30 de abril, desde outubro de 2018... cada consulta custou quatrocentos e cinquenta reais... uma consulta por mês... são um total de oito mil quinhentos e cinquenta reais pelas consultas médicas.

- Ah mas puta que o pariu...

- Mas o senhor sabe que o tratamento não se resume apenas a consultas, não é? Minha cliente teve um grande gasto com medicamentos também. Vejamos, ela informou que tomava dois tipos diferentes por dia, cada caixa custando cerca de noventa reais. Tiramos uma média, claro, por que isso se resume de farmácia pra farmácia, sabe como é. Então, por mês ela gastava em média cento e oitenta reais com medicamentos, vezes o número de meses em que fez isso durante o seu matrimônio... Três mil quatrocentos e vinte reais! Isso por que ela não incluiu as doses extras em que precisou tomar um rivotril para conseguir dormir, né? Haha! Bem, e além disso...

- E ainda tem mais!?

- Claro, não pense que tudo isso afetou apenas a saúde mental de minha cliente não. Sabe, o estresse mexe bastante com o nosso corpo também, e estresse foi o que não faltou desde outubro de 2018, não é mesmo? Haha! Então, ela precisou de diversos procedimentos estéticos e terapêuticos para cuidar de uma ruguinha ali, uma olheira aqui... Além da natação, da academia e da yoga que ela alega que começou a fazer justamente para ficar menos tempo com o senhor dentro de casa e não precisar se estressar. Veja, não há pra onde correr... Então, juntando todas as sessões de estética, as aulas e academia... são cerca de trinta mil e quinhentos reais.

- Tá louco? Mas eu não tenho esse dinheiro todo!

- Não, não, esse não é o valor final do ressarcimento, precisamos somar com as consultas e remédios e hum... deixa eu pegar minha calculadora aqui... fica tudo quarenta e dois mil quatrocentos e setenta reais, e... êpa, êpa, já ia me esquecendo, também precisamos incluir os gastos com os meus honorários que, o senhor compreende, se não fosse por tudo isso ela não precisaria gastar dinheiro com um advogado, não é mesmo? Então, se eu cobrei quatrocentos e cinquenta e cinco por hora, hum...

- Isso só pode ser piada, vou falar com o meu advogado, passar b...

- Hm... Mas o senhor gosta de gastar dinheiro, hein?

- Quê?

- Bem, considerando que o senhor não vai ganhar essa, né? Ainda vai precisar pagar os honorários de dois advogados...

- Mas eu...

- Experimente pra ver, mas eu não lhe aconselho não. E nesses tempos de pandemia nada está ficando mais barato, não é mesmo? Ai, ai...

- ...

- Senhor Carlos Eduardo, não gostaria de prolongar esta conversa mais do que necessário. Precisamos continuar, então onde eu estava? Ah, sim... meus honorários... quatrocentos e cinquenta e cinco... vejamos, por todos os dias que prestei assistência à senhora Helena da Silva... seis mil oitocentos e vinte e cinco. É, o senhor custou um bocado de dinheiro a minha cliente haha! Bem, juntando com o valor dos outros ressarcimentos... quarenta e nove mil duzentos e noventa e cinco, isso mesmo, este é o valor final.

- Mas não entendo... O que fiz de tão grave? É por causa do partido? Helena não pode fazer isso comigo, eu, eu...

- O senhor vive numa bolha? Veja as notícias, os hospitais, as pessoas... Ah, é difícil até de dizer...

- Mas eu não tenho culpa disso que tá acontecendo!

- Meu caro, todos nós sabemos em quem o senhor votou.

Alguns dias depois, Helena, em seu novo apartamento, recebe os papéis do divórcio assinados. Junto a eles consta um cheque com o valor do ressarcimento. Ela pega o celular para fazer uma ligação.

- Oi, bom dia. É do Hospital Delfina? Eu gostaria de fazer uma doação.