A direção do desejo, por Victor Leandro

08/07/2020

Schopenhauer, a quem a psicanálise e filosofia existencial devem muito, afirmou que não é possível ao sujeito obter a liberdade plena, posto que, se podemos escolher fazer ou não o que queremos, por outro lado, é impossível selecionar o que desejamos. Assim, nossa vontade segue sempre ordenada por um impulso cego, vindo de regiões raramente acessíveis, o qual no máximo podemos controlar ou dirigir ordinariamente.

Mais adiante, Freud resolveu visitar essa magnífica terra onde moram os desejos. Estando lá, encontrou, por meio de seu método de escuta, uma série de objetos libidinais inusitados e fantasias tanto mirabolantes quanto belicosas, que fizeram corar - e ainda fazem - as faces moralistas de nossa hipócrita burguesia.

Hoje, diante da questão de se desejar ou não a morte do suposto presidente, mais uma vez, o debate se reveste da mesma falsidade ingênua e mistificada de há mais de um século. Pretende-se que as pessoas excluam de si sensações que inevitavelmente não governam, enquanto se posa como um arauto do inconsciente asséptico. Tudo isso para não ter de admitir a monstruosidade de nossos anseios reclusos, cuja denegação revela-se como um esforço inútil e que pouco realiza além de inibir-nos de perscrutar e dirigir as raízes de nossa agressividade.

Em vez de tentar uma fuga impossível, deveríamos enfrentar o desejo e interrogar por sua organização. Somente dessa forma podemos lhe dar um manejo coerente, no lugar da parca desfaçatez em que estamos. Nada mais útil para superar a ordem da violência que domina o país no presente momento.