A cidade e seus cúmplices, por Victor Leandro

11/07/2020

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-Não, ninguém se lembra, ninguém liga. Até nós, de certa maneira, não ligamos. Senão era impossível estarmos aqui juntos, no meio da cidade, ainda que em lugar mais calmo, pelo menos no céu aberto. Ainda me contaram uma história de que estavam dizendo que vencemos. Ridículo! Aonde formos, só existe derrota, nossa, da tal ciência, da arte, da saúde, do mundo. Vejam, eu e vocês parados aqui e não temos o que dizer. Porque o mais já foi dito. Outros no passado tiveram a peste, a gripe espanhola. Nem mesmo podemos tratar do espanto dessas ruas entupidas, pois o caos moderno está guardado e celebrado inteiro em Marinetti. Daqui o que a gente faz? A gente imita. E pensa e faz isso muito mal. Aliás, eu me vejo uma menina do Norte, e até isso, notem, até isso é de uma falta de originalidade absurda! O problema é o tempo, apenas o tempo, amigos. Tínhamos que ter nascido pelo menos meio século antes. Aí mudaríamos a história. Aí o madrugada não seria só uma antologiazinha, e tínhamos mais hoje o que dizer. Mas como que vai ser esse sarau?

-Ficaremos na praça, um tanto longe. Declamaremos.

-Os tais versos da pandemia?

-Sim.

-É outro clichê.

-Tem razão. Contudo, é o que se tem.

-O que vai dizer lá, Ana?

-Cinco palavras, no máximo. E uma cantiga.

-Será válido.

-Ou ridículo.