A cidade e seus cúmplices, por Victor Leandro

20/06/2020

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Todo escritor é de certa maneira um demiurgo da cidade. Não que a molde, não que a faça como sua. Isso fica para os gananciosos e para os políticos. Também não é ela mesma a sua ideia. Mas a questão, ao final, é que este a relata, ainda que sem motivo. Sobra, assim, um ímpeto agudo no imaginário do leitor, que desse modo elucubra aquelas vias e situações, pensando encontra-las em algum passeio de meio de ano. Claro, o real vivenciado por este não raro é frustrante. Mas é culpa exclusivamente dele ter acreditado nas arquiteturas de uma ficção.

Era o que de fato considerava João Antônio. Sim, tinha esse direito, dizia a si entrementes. Acaso por ser pobre não poderia fazer especulações desse tipo? Mania de elitista. O escritor miserável só pode falar de sua pobreza. Senão aliena. Senão é delirante. Os assuntos refinados são exclusividade dos ricos. Também os metafísicos. Quem sente fome não tem tempo para saber o que é crise existencial. Porém, o que mal suspeitam os acadêmicos, é que somente no desespero famélico surge a verdade da existência. O resto é teoria de butique. Não, pensou ele, eu me concedo a liberdade absoluta de refletir o que me der na cabeça.

Mas de ainda fora havia o seu mundo. E dos outros. E nesse estava a mãe, sempre ela, solteira, quatro filhos, a ruminar nas contas de costura. Nunca ele teve esperanças de viver de palavras, isso seria ridículo. Então se virava, aqui e ali, além de animado ir aos estudos, pelo que já no quarto período entre os do bairro se via definido professor, dando aulas a valores mínimos. Era pouco, mas algo. Pior antes quando sempre ia sem nada, acreditando apenas que os livros lhe dariam qualquer dia alguma ajuda. Deram. Ínfima. Deveria ser melhor. Por isso, vez por outra, também era pedreiro. Ou fazia entrega de comida. De onde viesse a grana, tanto faz. É preciso viver de alguma maneira.

Porém, não conseguiria ser só isso, costumeiramente afirmava. Também tinha o que poder. Então, em momentos como esse, de maior calma, ele tomava sua jaqueta guardada nos fundos do armário e saía a flanar imponente pela rua, com planos mágicos e numinosos a respeito dos saraus dos escritores, tal um poeta legítimo do asfalto ardente, da rua inaudita, do silêncio e da voz iluminada dos anunciadores de versos esquecidos. Assim, sem delongar muito, terminou seu café, para o que em seguida escapuliu célere rumo ao devir do dia.


Imagem - https://g1.globo.com/am/amazonas/manaus-de-todas-as-cores/2017/noticia/manaus-inspira-artistas-plasticos-e-vira-tema-de-obras-que-representam-diferentes-aspectos-da-capital.ghtml